Entrevista a Madalena Victorino, bailarina e criadora.
Madalena Vitorino é uma das referências da dança contemporânea em Portugal. Nascida em Lisboa em 1956 tem dedicado a sua vida ao estudo e à exploração do espaço, do movimento e do corpo. Nesta conversa pretendemos revelar um pouco os segredos da mulher, da bailarina e da criadora.
ZV. Quando e como foi a sua estreia pública nas artes? Lembra-se da sua primeira aula de dança?
M. V. Aos 6, 7 anos, na escola, punha-me em cima de uma mesa, pedia a todos os meninos para se calarem e olharem para mim. Aí, eu dançava e cantava as músicas que os meus irmãos mais velhos ouviam no gira-discos em casa, depois queria que todos fizessem o mesmo: cantassem e dançassem comigo. Penso que esta foi a primeira aula que dei!
ZV. A família, a escola, os agentes culturais e os políticos estão suficientemente sensibilizados para essa importância das artes?
M. V. O nosso país, infelizmente, não é um dos territórios do mundo onde a arte, como forma experimental e lugar de investigação sobre a vida, seja praticada de forma generalizada e sistemática. Existem ao longo dos tempos e também agora, projectos de grande qualidade, no entanto não são suficientes. As artes mudam o olhar sobre as coisas, fazem avançar as mentalidades para planos mais rasgados e abertos aos enigmas com que nos deparamos.
Eu tenho como missão, no plano pequeno e circunscrito da minha acção, desenvolver este campo de intervenção: demonstrar através dos projectos em que me envolvo, a importância das artes na vida quotidiana das pessoas, de todas as pessoas. As artes são uma forma de alimento que não deve ser negligenciado quando pensamos que são como um fogo que aquece, sensibiliza e ilumina a mente.
ZV. Actualmente e apesar de haver uma maior oferta cultura em Portugal, mais companhias, mais salas e espectáculo, nem sempre os índices de consumo cultural se aproximam da escala europeia. Porquê esta situação? Será um problema dos criadores? Dos programadores? Ou das politicas culturais?
M. V. Trata-se de um problema de informação, de educação. As pessoas ainda não sabem do verdadeiro valor das artes, sabem do valor do euro, mas ver as artes como um prazer, uma delícia que é necessário proteger como a um jardim, que esse jardim lhes proporciona passeios, onde os seus anseios têm possíveis respostas, isso não é claro para a grande maioria das pessoas em Portugal.
A cultivação artística e cultural deve ser apresentada como vivência, desde muito cedo. Aqui existe uma desproporção de oportunidades. Muito poucos portugueses tiveram a sorte de ter uma educação estética, ética, de qualidade. Há muito trabalho para fazer. Apesar de não nos podermos esquecer nunca do que também já está feito e bem feito.
ZV. A importância dos serviços de educação junto dos públicos é hoje muito relevante e têm sido uma aposta das instituições culturais. De acordo com a sua experiência como devem ser as dinâmicas destas equipas e serviços?
M. V. Tive um papel importante no desenvolvimento dos serviços educativos do nosso país. Contribuí com um trabalho que o Centro Cultural de Belém me deu oportunidade de desenvolver com a orientação do Dr. Miguel Lobo Antunes, hoje director artístico da Culturgest. Fomos o primeiro grande pólo de actividades artísticas criadas e realizadas na direcção das crianças, adolescentes, professores, famílias, artistas interessados nestes públicos a nível nacional e internacional. Houve durante esse tempo uma visão que dava ao trabalho, um destaque e uma profundidade que imprimiram uma qualidade que contagiou. Sinto-me muito orgulhosa desse trabalho. O CCB apesar de ser uma fundação, é na minha perspectiva, um serviço público que deve em todos os campos da sua intervenção artística servir todos. A acessibilidade, a qualidade, a troca de informação, o apoio a outras instituições foram factores que contribuíram para termos no actual panorama português, neste campo, exemplos de um óptimo trabalho.
ZV. Na última década a forma de fazer cultura evoluiu. Surgiram as indústrias culturais, as novas tecnologias, os serviços de educação e a figura do programador cultural está cada vez mais presente nos processos culturais. Que conselhos daria a um programador cultural?
M. V. Um programador é um guardador de jóias. Jóias que ele encontra pelo seu caminho de pesquisas e que depois mistura com a sua visão do mundo. Acredito no programador "engagé" que propõe na sua programação uma linha coerente de ideias que ele descobre nas obras dos artistas que convida e que mistura com as necessidades e qualidades do lugar para o qual programa. Como desafiar um público a desejar, a querer não perder uma peça do teatro, a trazer a sua família, os seus amigos para fruir as artes? Como mostrar que o teatro pode ser uma casa viva, verdadeira e não artificial, que pertence às pessoas porque elas o podem verdadeiramente utilizar? Podem lá ir pensar, dançar, ouvir, comer, ler... e sentirem-se sempre bem. Podem lá ir conhecer pessoas, como os artistas que esperam o seu público nem sempre divididos pela "quarta parede" mas talvez e porque não beber um copo de vinho depois de um concerto..
ZV. “CARUMA” a folha do pinheiro. Que significa esta folha? Qual a força deste trabalho na relação da dança com as comunidades rurais?
M. V. A caruma, são agulhas que caem do céu e que quando chegam ao chão formam um tapete castanho e fofo que também pica, como a vida. "Caruma" é o meu primeiro grande trabalho coreográfico, depois de onze anos a trabalhar a duzentos por cento no Centro Cultural de Belém como programadora do Centro de Pedagogia e Animação. Trata-se de um espectáculo de teatro, dança e música (com a participação dos músicos Carlos Bica e Mário Delgado). Conta com 5 bailarinos e sensivelmente 50 pessoas de todas as idades que são de cada cidade por onde o projecto passa, convidadas a entrar no teatro e a transformar-se em intérpretes e guardiões do teatro durante uma semana. É um espectáculo para anjos nascidos na terra (bebés de um ano e meio abrem o espectáculo) e homens caídos do céu (pessoas mais velhas, muitas delas com mais de 80 anos, assim como adultos, jovens e rapazes entre 8 e 12 anos) cruzam-se com os bailarinos para dar ao momento, a sua dimensão aérea e subterrânea.
"Caruma" divide-se em três zonas, que são também três partes: o que está debaixo do chão, quando os pés assentam na terra e quando o céu desce sobre nós. Não é só um trabalho para as comunidades rurais. É um trabalho que fala do corpo na sua relação com a terra, como o território que pisamos quando vivemos, com o ar e com os outros.
ZV. Presentemente quais são os seus projectos?
M. V.
São muitos. Vivo um momento fulgurante. Sou professora e coreógrafa e entre estes dois planos que muitas vezes se fundem, tenho tido a sorte de ter convites que me fazem crescer e me fazem feliz.
Carla Madeira
José Reis